O caso envolvendo um bebê de três meses que teria passado por uma cirurgia não autorizada no Hospital Municipal Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, provocou forte reação da família e abriu um novo debate sobre comunicação, consentimento e conduta médica em procedimentos pediátricos. A mãe da criança afirma que levou o filho ao hospital para uma cirurgia previamente discutida e autorizada, mas que ficou surpresa ao descobrir que outro procedimento também havia sido realizado sem que tivesse sido informada ou consultada.
Segundo o relato da mãe, o bebê deveria ser submetido apenas à retirada de um sexto dedo presente nas duas mãos — uma condição conhecida como polidactilia, geralmente corrigida cirurgicamente ainda nos primeiros meses de vida. No entanto, ao receber o filho após o procedimento, ela foi informada de que a equipe médica havia realizado também uma frenectomia lingual, procedimento em que ocorre o corte do freio da língua para corrigir limitações de mobilidade bucal. A mãe afirma que não autorizou essa intervenção adicional e que não foi comunicada sobre qualquer alteração no plano cirúrgico.

Relato da mãe, queixa na polícia e dores após o procedimento
A mãe informou que o bebê passou a apresentar forte irritação e dores após a cirurgia, o que aumentou sua preocupação sobre a realização da frenectomia. Diante disso, ela procurou a polícia para registrar a ocorrência. A Secretaria de Segurança Pública confirmou que o caso foi registrado como lesão corporal no 62º Distrito Policial, que já requisitou exame pericial para avaliar possíveis impactos do procedimento.
De acordo com a família, a falta de comunicação prévia e a sensação de surpresa ao saber da frenectomia foram os principais motivos para a denúncia. A mãe defende que tinha direito de ser informada sobre qualquer alteração no procedimento original, especialmente por se tratar de um bebê tão pequeno e vulnerável. O questionamento levantado por ela envolve não apenas a legalidade da decisão médica, mas também o respeito ao princípio básico do consentimento informado, indispensável em cirurgias.
O caso gerou debate entre profissionais e usuários de redes sociais, muitos expressando dúvidas sobre a necessidade da frenectomia e sobre a conduta ideal em situações em que a equipe médica identifica uma demanda inesperada durante a cirurgia. Especialistas lembram que, mesmo quando há indicação técnica, a autorização dos responsáveis é considerada uma etapa fundamental, salvo em casos de urgência que coloquem a vida em risco — o que não teria sido apontado neste episódio.
Versão da Secretaria Municipal da Saúde e justificativas apresentadas
Após a repercussão, a Secretaria Municipal da Saúde emitiu nota informando que a equipe de cirurgia pediátrica identificou a necessidade da frenectomia durante a avaliação clínica e que os dois procedimentos foram realizados sem qualquer intercorrência. Segundo a pasta, a intervenção buscou melhorar as condições de saúde da criança e teria sido considerada necessária do ponto de vista técnico. A Secretaria reforçou que o bebê recebeu alta no mesmo dia, com quadro clínico estável.
A nota, contudo, não detalha por que a família não foi informada antes da realização do procedimento adicional, nem se houve tentativa de comunicação com a mãe antes da decisão médica. Esse ponto segue como o principal foco da investigação aberta pela Polícia Civil, que busca esclarecer se houve falha de comunicação, negligência ou eventual violação de protocolo.
Enquanto o caso segue em apuração, ele levanta uma discussão importante sobre o papel da equipe médica na tomada de decisões envolvendo pacientes incapazes de consentir, como bebês e crianças pequenas. Também reforça a necessidade de protocolos claros e comunicação transparente, tanto para garantir segurança quanto para manter a confiança entre profissionais de saúde e familiares.