A morte da jovem Rhianna Alves, de 18 anos, continua repercutindo profundamente em todo o país, alimentando debates sobre violência de gênero e a resposta das autoridades em casos considerados urgentes. A tragédia ocorreu no último sábado (6), no município de Luís Eduardo Magalhães, no interior da Bahia, e ganhou contornos ainda mais dramáticos quando o principal suspeito, Sérgio Henrique Lima dos Santos, de 19 anos, não apenas confessou o crime, como também dirigiu até a delegacia levando o corpo da vítima no próprio veículo.
A cena, descrita por agentes como “incomum e perturbadora”, chamou a atenção da população e da imprensa nacional. Apesar disso, Sérgio foi liberado após prestar depoimento, o que provocou uma onda de indignação nas redes sociais e levou o delegado responsável a explicar a decisão.
Segundo o delegado Leonardo Mendes Júnior, a legislação vigente impede a prisão de pessoas que não foram detidas em flagrante e se apresentam voluntariamente. Por essa razão, ele não pôde ser mantido sob custódia naquele primeiro momento. A decisão, embora juridicamente fundamentada, foi amplamente contestada por internautas que, diante da confissão, esperavam uma medida mais rígida.
A pressão social coincidiu com o avanço das investigações, que se desenvolveram rapidamente. Com novos elementos reunidos pela equipe policial, Sérgio foi indiciado por feminicídio e teve sua prisão preventiva decretada, sendo capturado menos de uma semana depois da liberação inicial.

Contradições do depoimento e os elementos que sustentaram o indiciamento
A versão apresentada por Sérgio logo após o crime foi central na análise inicial do caso. O motorista afirmou que havia saído com Rhianna para um encontro e que um desentendimento dentro do carro teria desencadeado uma discussão acalorada. Segundo o suspeito, a jovem teria feito ameaças contra ele e, durante a briga corporal, ele teria aplicado um “mata-leão” que acabou levando à morte da vítima. A narrativa foi apresentada como um ato de desespero, sem intenção homicida, tentando caracterizar a situação como legítima defesa.
Contudo, ao longo dos dias seguintes, os investigadores consideraram que diversos elementos confrontavam essa versão. De acordo com o delegado Leonardo Mendes Júnior, novos depoimentos, laudos iniciais e a dinâmica dos fatos apontaram indícios mais robustos de violência intencional, afastando a tese de defesa própria. O delegado afirmou que a prioridade da Polícia Civil foi fortalecer o procedimento investigativo antes de representar pela prisão, garantindo que o suspeito fosse afastado do convívio social e que a responsabilização ocorresse com base em provas sólidas.
A postura do investigado, a forma como conduziu a vítima até a delegacia e as contradições em seu depoimento contribuíram para que a polícia descartasse a alegação de que ele teria agido para se proteger. A partir dessas análises, a tipificação do caso como feminicídio passou a ser considerada adequada diante do conjunto de evidências reunidas.
Choro no velório e impacto emocional não modificaram a linha de investigação
Um momento que chamou a atenção nos desdobramentos do caso ocorreu durante o velório de Rhianna. Mesmo após confessar o crime e antes de ter a prisão decretada, Sérgio compareceu à cerimônia e chorou diante do caixão da jovem, gesto que surpreendeu familiares, amigos e testemunhas presentes. Segundo relatos, o suspeito disse que “não queria que tivesse acontecido daquela forma” e que havia “perdido o controle” durante a discussão. O episódio teve forte repercussão nas redes sociais e dividiu opiniões entre aqueles que entenderam o ato como remorso e outros que o viram como uma tentativa de reforçar sua versão de que não teria agido com intenção de matar.
Para os investigadores, porém, o comportamento de Sérgio no velório não alterou a linha investigativa, uma vez que os elementos técnicos e testemunhais já apontavam para outra direção. A emoção demonstrada pelo suspeito não teve peso jurídico, servindo apenas como um registro adicional nos autos. Com o indiciamento concluído e a prisão preventiva decretada, o caso agora segue para análise do Ministério Público, que poderá apresentar denúncia formal, solicitar novas diligências ou, em último caso, arquivar o procedimento.
Enquanto isso, a família de Rhianna segue em luto e pede que a Justiça avance com celeridade, buscando respostas diante de uma morte que mobilizou o país pela gravidade, pela comoção pública e pelo desfecho ainda em construção.