Papagaio de 37 anos é abandonado após mudança e acaba sendo…Ver mais

0

Durante 37 anos, a voz de Paçoca fez parte da rotina de uma rua tranquila no bairro Rio Tavares, em Florianópolis. O papagaio-verdadeiro, de penas verde-vivas e cabeça amarela, era conhecido pelo animado “Bom diaaa!” que ecoava todas as manhãs, quase como um relógio natural marcando o início do dia.

Criado desde filhote na mesma casa, ele tinha hábitos bem definidos: adorava banana amassada, implicava com o barulho do aspirador e imitava com perfeição o toque do telefone. Seu poleiro ficava próximo à janela, de onde observava bicicletas passando, crianças indo para a escola e o movimento simples da vizinhança. Era mais do que um animal de estimação. Era parte da família.

Publicidade

Tudo parecia permanente. Até que deixou de ser.

A mudança inesperada e o silêncio

Publicidade

Em um sábado de manhã, a rotina foi substituída por correria. Caixas espalhadas, móveis sendo carregados, portas batendo. A mudança aconteceu de forma apressada. No meio da movimentação, Paçoca ficou na varanda.

A porta foi fechada. O caminhão partiu.

E ninguém voltou.

Nos primeiros dias, ele ainda reagia com expectativa. Chamava pelos nomes que conhecia, repetia “Cadê? Cadê?”, aguardando resposta. A ração acabou rapidamente. A água evaporou sob o calor. O papagaio passou a bicar o pote vazio, depois apenas se encolhia no poleiro.

As penas perderam o brilho. O canto desapareceu. Restaram apenas pequenos sons roucos, misturados ao vento que passava pelas grades da varanda.

Mesmo enfraquecido, todas as manhãs ele se aproximava da beirada para olhar a rua. Esperava passos, vozes, qualquer sinal de que alguém retornaria.

O resgate que mudou tudo

Foi Dona Irene, vizinha da frente, quem percebeu que algo estava errado. O papagaio não parava de chamar, mas a casa permanecia fechada e silenciosa.

No oitavo dia, moradores conseguiram autorização para entrar no imóvel. Encontraram Paçoca quieto, imóvel, olhando fixamente para a porta.

Quando Dona Irene se aproximou e disse baixinho: “Oi, meu filho…”, ele respondeu com um som fraco: “Oi…”.

A cena comoveu todos.

Levaram o papagaio imediatamente para a casa dela. Nos primeiros dias, o cuidado foi intenso: água na seringa, frutas amassadas, ambiente tranquilo. O veterinário confirmou desidratação e estresse severo, mas afirmou que ele tinha chances reais de recuperação.

Dona Irene passou a conversar com ele diariamente. Contava como estava o clima, quem tinha passado na rua, o que estava acontecendo no bairro. Repetia sempre: “Você não está mais sozinho.”

Um novo “Bom dia” para a rua inteira

A recuperação foi lenta, mas visível. Primeiro, uma bicada firme na maçã. Depois, um salto mais seguro no poleiro. Um pequeno assobio.

Até que, em uma manhã clara, Dona Irene ouviu novamente a frase que havia marcado décadas:

“Bom dia!”

A voz saiu rouca, falha, mas viva.

Três meses depois, Paçoca já estava diferente. Penas brilhantes, olhar atento e comportamento ativo. Ganhou uma varanda telada, com plantas e brinquedos. Voltou a observar o movimento da rua e a reagir ao som do portão.

Quando Dona Irene chega do mercado, ele anuncia: “Chegou! Chegou!”, seguido de uma risada característica.

Hoje, o “Bom dia!” voltou a ecoar no bairro. Mais do que costume, tornou-se símbolo de recomeço. A história de Paçoca lembra que, mesmo após o abandono e o silêncio, o cuidado pode restaurar o que parecia perdido.

Às vezes, tudo o que salva é alguém perceber — e agir.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.