A perda de um grande médico transcende a simples despedida de um profissional da saúde; é o silenciamento de uma trajetória alicerçada em décadas de dedicação inabalável, conhecimento técnico refinado e um compromisso visceral com a dignidade da vida humana.
Quando esse legado atravessa gerações, moldando o caráter de inúmeros estudantes e transformando a própria essência do exercício médico, sua ausência deixa uma lacuna profunda na sociedade. Foi esse sentimento de reverência e saudade que marcou a despedida do médico e professor Celso Matias de Almeida, falecido aos 98 anos, uma figura que se tornou sinônimo de retidão na medicina potiguar.

O Mestre da Ética e a Construção de um Legado
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Carinhosamente alcunhado por seus alunos como “o homem da ética médica”, Celso Matias não apenas ensinou a ciência das patologias, mas transmitiu a arte da compaixão. Sua atuação foi sempre pautada pela valorização intrínseca da relação médico-paciente, um princípio que, sob sua batuta, tornou-se um pilar fundamental no ambiente acadêmico e clínico. Natural da Bahia e formado pela Universidade Federal da Bahia em 1952, ele iniciou sua jornada profissional em solo potiguar, especificamente em Currais Novos, pouco tempo depois de sua formatura.
Ao se estabelecer em Natal, Celso Matias consolidou uma carreira acadêmica brilhante na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Entre os anos de 1967 e 1995, lecionou com maestria disciplinas como Fisiologia e Semiologia Médica. Mais do que passar conteúdo técnico, ele formou consciências. Suas aulas eram lições de vida, onde o rigor científico encontrava a empatia necessária para acolher o sofrimento alheio. Sua dedicação ao ensino foi reconhecida com o título de Professor Emérito da UFRN, uma honraria que apenas tangencia a magnitude de sua contribuição para a saúde pública do Rio Grande do Norte.
Um Compromisso que Ultrapassou a Aposentadoria
A vocação de Celso Matias não conhecia limites cronológicos. Mesmo após sua aposentadoria formal da universidade, ele manteve um compromisso inegociável com o próximo, exercendo a medicina de forma voluntária no Hospital Universitário Onofre Lopes até o ano de 2008. Esse gesto resume a sua visão de mundo: para ele, a medicina não era um meio de subsistência, mas um sacerdócio. Especialista em Geriatria e membro de destaque da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte, ele entendia que a longevidade, tema que abraçou com tanto esmero, deveria ser vivida com qualidade, respeito e autonomia.
Sua lucidez e preocupação humanitária manifestaram-se de maneira tocante durante a pandemia de Covid-19. Aos 92 anos, em um momento em que a tecnologia digital dominava as comunicações, ele optou pelo método clássico e pessoal: escreveu manualmente orientações voltadas especificamente para a população idosa. Esse ato, que viralizou e comoveu o estado, demonstrou que, para o professor Celso, a tecnologia jamais substituiria o contato humano e o cuidado genuíno com o bem-estar coletivo.
A Perenidade de uma História Exemplar
O falecimento de Celso Matias de Almeida gerou uma onda de manifestações por parte de entidades médicas e acadêmicas, todas uníssonas em destacar que a medicina potiguar perdeu um de seus maiores defensores. No entanto, o peso dessa perda é atenuado pela permanência de seus ensinamentos. Ele deixa não apenas uma família enlutada — esposa, filhos, netos e bisnetos — mas também uma legião de ex-alunos que hoje, em consultórios e hospitais, replicam o olhar atento e a conduta ética que aprenderam ao lado do mestre.
A vida de Celso Matias é um lembrete de que o sucesso de um médico não deve ser medido apenas pela técnica, mas pela humanidade com que atende aqueles que buscam alívio. Seu legado é uma chama que continuará aquecendo as futuras gerações de profissionais da saúde, servindo como uma bússola moral em tempos onde a tecnologia, por vezes, ameaça sobrepujar a sensibilidade do cuidado. Celso Matias partiu, mas sua ética, sua dedicação ao ensino e seu amor ao próximo permanecem vivos como um farol para a medicina brasileira.