A cada final de ano, o debate sobre as raízes do Natal ressurge com força, especialmente nas redes sociais. A imagem que viralizou, extraída de um segmento do podcast Redcast, promovido pelo perfil “Vikings da Depressão”, ecoa uma afirmação radical, mas historicamente fundamentada: “O Natal não tem nada a ver com Jesus! A igreja criou. Isso é pagão! Não tá na Bíblia.”
Embora a identidade da mulher no vídeo não seja o foco, a veemência de sua fala representa um ceticismo crescente em relação às tradições eclesiásticas. A declaração coloca em xeque a crença popular, forçando uma distinção entre a fé cristã central e as práticas culturais adotadas ao longo dos séculos. Para entender a dimensão dessa controvérsia, é preciso analisar o argumento da não-biblicidade e o contexto em que a data foi oficializada.

A Voz da Controvérsia: O Argumento da Não-Biblicidade
A essência da afirmação da mulher no podcast reside na premissa de que a Bíblia não oferece suporte para a data de 25 de dezembro. De fato, nenhum texto bíblico – seja nos Evangelhos, seja nas cartas apostólicas – especifica o dia, o mês ou o ano do nascimento de Jesus. Passagens como a dos pastores em seus campos à noite (Lucas 2:8) sugerem que o nascimento não ocorreu durante o auge do frio, o que seria típico de dezembro no inverno da Judeia.
Para a teologia e a história, a ênfase do cristianismo primitivo não estava no nascimento (Natividade), mas sim na morte e ressurreição (Páscoa). A celebração da vinda de Cristo foi uma adição tardia ao calendário litúrgico. A ausência de um mandamento divino para celebrar o Natal e a falta de precisão da data são os pilares que sustentam a crítica de que a festa, tal como a conhecemos, é uma criação eclesiástica, e não uma doutrina bíblica. Esse ponto de vista é historicamente abraçado por diversas vertentes cristãs que defendem uma adesão estrita aos textos sagrados.
A Verdadeira Origem do Natal: Sincretismo e o Sol Invictus
A controvérsia ganha corpo ao analisar a origem da data de 25 de dezembro no calendário romano. Foi somente por volta do século IV d.C., com o cristianismo em ascensão no Império Romano, que a data foi oficialmente instituída pela Igreja Católica, provavelmente sob o papado de Júlio I (c. 350 d.C.).
A escolha do dia não foi aleatória. Ela se alinhava perfeitamente com o período de celebrações pagãs do solstício de inverno e, mais especificamente, com o festival do Dies Natalis Solis Invicti (Dia do Nascimento do Sol Invicto), uma festa popular em Roma em homenagem ao deus sol. O imperador Aureliano havia oficializado esse culto solar em 274 d.C.
Ao fixar o nascimento de Jesus – o “Sol da Justiça” e a “Luz do Mundo” na teologia cristã – no mesmo dia da festa pagã do Sol Invicto, a Igreja adotou uma poderosa estratégia de sincretismo. Essa prática permitiu que as populações pagãs, já acostumadas a celebrar o “retorno da luz” após a noite mais longa do ano, convertessem-se mais facilmente ao cristianismo, reinterpretando seus rituais sob uma nova ótica religiosa.
Tradição Pagã nos Símbolos e a Reinterpretação da Fé
O argumento da origem pagã se estende aos principais símbolos da celebração moderna. A troca de presentes remonta à Saturnália, um festival romano que ocorria em meados de dezembro. A própria Árvore de Natal tem raízes nas tradições germânicas pré-cristãs, onde árvores perenes eram decoradas no inverno como um símbolo de vida e esperança. Martinho Lutero, séculos depois, popularizou o pinheiro decorado com velas, simbolizando o céu estrelado. O Papai Noel, por sua vez, é uma fusão do bispo São Nicolau de Mira (século IV) com a iconografia nórdica e o marketing do século XIX.
Portanto, a celebração do Natal é, inegavelmente, um mosaico de tradições seculares, pagãs e eclesiásticas. No entanto, para a vasta maioria dos cristãos, o significado da data transcendeu suas origens históricas. O 25 de dezembro não é venerado como um fato teológico exato, mas como o momento culturalmente designado para comemorar a Encarnação, o pilar da fé cristã. A data é a Tradição Eclesiástica, o Nascimento é o Fato Teológico, e essa distinção permite que o Natal continue sendo uma celebração universal de fraternidade, esperança e renovação.