A noite de segunda-feira (17) terminou em tragédia para os moradores do Morro Chapéu-Mangueira, no Leme, zona sul do Rio de Janeiro. O jovem Rodrigo Serrano, de 26 anos, foi morto após ser atingido por dois disparos feitos por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). De acordo com testemunhas, os agentes confundiram o guarda-chuva que ele segurava com um fuzil, o que resultou em uma abordagem fatal.
Segundo o relato de Alexandre de Freitas, primo da esposa da vítima, Rodrigo aguardava a mulher e os dois filhos, que subiam a comunidade em uma kombi, quando foi surpreendido pelos tiros. Ele foi atingido no peito e na perna, morrendo antes de receber socorro. “Ele estava em um local um pouco escuro, apenas esperando a mulher, quando os policiais atiraram. Não havia confronto. A carteira de trabalho dele ficou toda ensanguentada”, relatou o familiar, revoltado.
Rodrigo era casado havia sete anos e pai de dois filhos — um de quatro anos e outro de apenas dez meses. Trabalhava como vigia de um bar no Leme e, segundo os parentes, estava feliz com o novo emprego, após ter enfrentado um período de desemprego. Durante a ação, outro morador, Jonatas Rodrigues, de 21 anos, foi atingido de raspão na costela e levado para o Hospital Miguel Couto, na Gávea, onde recebeu alta poucas horas depois.

Família contesta versão da polícia e pede justiça
A Polícia Militar divulgou nota afirmando que uma guarnição do Grupamento Tático de Polícia de Proximidade (GTPP) foi atacada por criminosos na região conhecida como Bar do Davi, local onde Serrano foi baleado. Segundo a corporação, os agentes revidaram o ataque e, após o cessar dos disparos, encontraram dois homens feridos, além de um rádio comunicador próximo ao corpo.
Entretanto, moradores e familiares contestam essa versão. De acordo com eles, não houve confronto algum, e os policiais teriam atirado sem qualquer justificativa. “Minha prima chegou desesperada no local e foi destratada. Disseram para ela tirar satisfação na boca de fumo. É uma falta de respeito enorme”, contou Alexandre.
O caso foi registrado na 12ª Delegacia de Polícia (Copacabana) como auto de resistência, e a Corregedoria da Polícia Militar informou que está acompanhando as investigações. A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da morte e declarou, em nota, que “diligências estão em andamento” para esclarecer os fatos.
Embora a PM tenha confirmado que Rodrigo tinha passagens por roubo e tráfico de drogas, familiares afirmam que ele havia deixado essa vida para trás e tentava reconstruir seu caminho. “Ele estava trabalhando, sustentando a família. Não merecia morrer assim, por engano”, disse um parente emocionado.
Caso reacende debate sobre violência e racismo policial
A morte de Rodrigo Serrano reacende a discussão sobre o uso excessivo da força e o racismo estrutural nas ações policiais. Episódios como esse reforçam a sensação de insegurança entre os moradores de comunidades, que vivem sob o medo constante de serem confundidos com criminosos.
Especialistas em direitos humanos destacam que o caso expõe, mais uma vez, a necessidade de revisão nos protocolos de abordagem e treinamento policial, especialmente em regiões periféricas.
Enquanto a família pede justiça, o nome de Rodrigo passa a integrar uma triste estatística: a de jovens negros mortos por erro policial em operações nas favelas do Rio. A dor da perda se mistura à indignação, e o clamor por respostas ecoa mais uma vez — em busca de uma verdade que, para os familiares, não pode ser esquecida.