Brasil, 2025 — A morte de Gerson de Melo Machado, 19 anos, após invadir o recinto de uma leoa no Zoológico Arruda Câmara, em João Pessoa, voltou a expor uma história marcada por vulnerabilidade extrema e abandono.
O jovem, que já havia sido acompanhado pelo conselho tutelar por anos, acabou perdendo a vida de forma brutal, com o pescoço perfurado pelos dentes do animal, segundo o laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML).

A descoberta do laudo: ferimentos profundos e morte rápida
O relatório inicial do IML revelou que, assim que Gerson caiu próximo à leoa, o animal mordeu diretamente o pescoço do rapaz. Os dentes atingiram vasos importantes da região cervical, provocando choque hemorrágico imediato.
Ainda de acordo com o laudo, o animal não ingeriu nenhuma parte do corpo, descartando hipóteses de ataque prolongado. Exames complementares, como a análise toxicológica, seguem em andamento e devem ser divulgados nos próximos dias, reforçando a investigação sobre as circunstâncias que antecederam a invasão da área restrita do zoológico.

Um velório simples e marcado por comoção silenciosa
O corpo de Gerson foi sepultado na segunda-feira (1º), no Cemitério Cristo Redentor, em João Pessoa. A Prefeitura da capital custeou o funeral por meio de um programa voltado a famílias em alta vulnerabilidade social.
O velório, apesar de simples, reuniu pessoas que acompanharam a trajetória do jovem, muitas delas marcadas pela curiosidade e pelo impacto do caso que ganhou repercussão nacional. O clima entre os presentes era de silêncio e perplexidade, refletindo a dureza de uma história que vinha sendo construída muito antes da tragédia no zoológico.

Infância marcada por abandono, pobreza extrema e busca por pertencimento
A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson por oito anos, descreveu uma vida marcada por violações de direitos desde a infância. Criado em um ambiente de pobreza extrema, o jovem enfrentava sucessivas ausências: uma mãe com esquizofrenia, avós com graves problemas de saúde mental e nenhuma rede familiar capaz de acolhê-lo de fato.
Mesmo destituído do poder familiar, ele buscava a mãe sempre que podia. E, nos raros encontros, era rejeitado. Verônica relatou que, em crises, a mãe chegou a levá-lo ao conselho tutelar dizendo não ser mais responsável por ele — uma rejeição motivada pela própria doença e não por falta de afeto, segundo a conselheira.
A trajetória de Gerson mostra mais que um episódio trágico envolvendo um animal selvagem. Expõe a fragilidade de um sistema que, muitas vezes, não consegue oferecer alternativas reais para jovens que crescem em abandono psicológico, social e estrutural. A morte brutal encerra uma vida marcada pela busca constante por cuidado, pertencimento e dignidade — algo que ele, infelizmente, quase nunca encontrou.