A história de Dâmaris Vitória Kremer da Rosa, de 26 anos, tem comovido o país e provocado revolta nas redes sociais. Após seis anos presa preventivamente por um crime que não cometeu, a jovem foi absolvida por falta de provas — mas a liberdade chegou tarde demais. Nesta última segunda-feira, 27 de outubro, Dâmaris faleceu vítima de câncer de colo do útero, diagnosticado ainda no período em que estava encarcerada.

Anos de dor e injustiça atrás das grades
Presas preventivamente desde 2019, Dâmaris foi acusada de envolvimento em um assassinato, sob a alegação de que teria atraído a vítima para uma emboscada preparada pelo namorado. A defesa sempre sustentou sua inocência, mas mesmo sem condenação definitiva, ela permaneceu detida por mais de seis anos em diferentes unidades prisionais do Rio Grande do Sul.
Durante esse período, as condições de encarceramento foram descritas pela família como desumanas. Sua mãe, Claudete Kremer Sott, de 51 anos, relatou em entrevista à Rádio Gaúcha o sofrimento extremo vivido pela filha dentro do presídio.
“Ela se mordia de dor. As outras detentas davam seus próprios remédios, porque não aguentavam ouvir ela gritar”, desabafou.
Segundo Claudete, a situação no Presídio Estadual de Rio Pardo, onde Dâmaris chegou a ficar, era degradante.
“É uma antiga senzala. As baratas caminham por cima das camas e dos alimentos. Não tem pátio para as visitas, e quando chove, a gente fica na chuva”, denunciou a mãe, em tom de indignação.
O diagnóstico tardio e o colapso do sistema
A Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) nega que tenha havido negligência e afirma que Dâmaris recebeu 326 atendimentos médicos durante o período em que esteve presa. No entanto, a Justiça só converteu sua prisão em domiciliar em março de 2025, quando o câncer já estava em estágio avançado e o tratamento pouco pôde fazer.
Mesmo após o diagnóstico, a jovem foi obrigada a usar tornozeleira eletrônica durante as sessões de quimioterapia e radioterapia, o que, segundo a defesa, representava mais uma forma de humilhação. Em agosto de 2025, veio a absolvição definitiva, mas apenas 74 dias antes de sua morte.
Liberdade tardia e sonhos interrompidos
Dâmaris sonhava em cursar biomedicina e reconstruir a vida. Apesar da dor e do desgaste físico, mantinha esperança de um recomeço. Sua mãe contou que a filha planejava ajudar outras mulheres em situação semelhante e que repetia constantemente que “a justiça ainda viria”.
Agora, a família tenta transformar a dor em denúncia. Claudete exige uma investigação sobre a negligência médica e a demora judicial que, segundo ela, custaram a vida da filha. O caso reacende o debate sobre prisões preventivas prolongadas e a responsabilidade do Estado em garantir condições dignas e atendimento médico adequado aos detentos.