A filha da cantora Nama Ray, nome artístico de Nadia Zund, segue internada na unidade de cuidados intensivos da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, nove dias após o nascimento. O bebê, que nasceu com 3,7 quilos, precisou ser reanimado logo após o parto, após ter vindo ao mundo em morte aparente. Segundo informações apuradas pelo Expresso, o quadro clínico da recém-nascida ainda é muito delicado, sem previsão de alta.
O caso comoveu Portugal e reacendeu o debate sobre os riscos dos partos domiciliares, já que a artista havia planejado dar à luz em casa. De acordo com o neonatologista Daniel Virella, presidente do colégio de Neonatologia da Ordem dos Médicos, as consequências da falta de oxigênio durante o nascimento podem ser graves e deixar lesões neurológicas irreversíveis.
“As consequências possíveis na criança não têm que ver com a reanimação, mas sim com o tempo que a criança esteve aparentemente morta e sem oxigénio. Haverá sempre consequências, mas tudo depende do tempo. E este parece-me poder ter consequências do mais grave que há”, explicou o médico ao jornal.

Hemorragia e paragem cardiorrespiratória
Grávida de 42 semanas, Nadia Zund estava em Lisboa, onde pretendia realizar um parto humanizado em casa. No entanto, uma queda súbita na frequência cardíaca da bebé obrigou o acompanhante — descrito como um homem que se apresentou como profissional de saúde — a levá-la às pressas para o serviço de urgência da Maternidade Alfredo da Costa, por volta das 22h15 do dia 31 de agosto.
A bebê nasceu pouco depois, mas a mãe apresentou uma forte hemorragia e acabou sofrendo paragem cardiorrespiratória já depois da meia-noite. Em estado de coma, Nama foi transferida para o Hospital Curry Cabral, onde não resistiu e faleceu no dia 1º de setembro, vítima de uma nova paragem cardiorrespiratória.
Debate sobre os partos domiciliares em Portugal
Para especialistas, o caso de Nama Ray representa uma tragédia que poderia ter sido evitada. O médico Daniel Virella ressalta que o parto domiciliar só deve ser considerado em condições ideais, com acompanhamento profissional e quando a gestação transcorre sem intercorrências. “Um parto em casa só deve acontecer se a gravidez tiver corrido bem, se a mãe for jovem e saudável e se o tempo de gravidez for o certo. Não sendo assim, é correr um risco desnecessário. Esta é daquelas histórias que correu particularmente mal”, afirmou o neonatologista.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o número de partos domiciliares em Portugal tem aumentado. Em 2018, foram 608 partos fora das maternidades, cerca de 40 a mais do que no ano anterior. Nos últimos cinco anos, mais de 3.200 bebês nasceram fora de hospitais em todo o país.
Enquanto isso, a filha de Nama Ray segue lutando pela vida. A equipe médica da MAC monitora de perto cada evolução do quadro clínico, mas ainda não há qualquer previsão de alta. O caso, marcado por dor e questionamentos, levanta uma reflexão sobre os limites da humanização do parto e a segurança das mães e dos recém-nascidos.