A mais recente pesquisa do Datafolha expôs um retrato nítido da polarização política e social no Brasil em torno da megaoperação policial que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro. O levantamento, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, revela que as opiniões sobre a ação variam fortemente de acordo com preferência política, gênero e faixa etária, refletindo o abismo ideológico que ainda marca o país.
Segundo os dados, 67% dos eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consideram que a operação não foi bem-sucedida, enquanto 83% dos eleitores de Jair Bolsonaro (PL) avaliaram a ação de forma positiva. A discrepância revela o quanto a discussão sobre segurança pública se tornou também uma questão de identidade política no Brasil contemporâneo.

Aprovação majoritária entre bolsonaristas e críticas entre lulistas e jovens
De forma geral, o Datafolha mostra que 57% dos moradores do Rio de Janeiro e da região metropolitana aprovaram a megaoperação, o que indica maioria favorável à ação das forças de segurança. No entanto, essa aprovação se concentra sobretudo entre homens e eleitores mais conservadores.
Entre os recortes apresentados, a diferença de gênero chama atenção: 68% dos homens aprovaram a operação, contra apenas 47% das mulheres. Já entre os jovens de 16 a 24 anos, a rejeição foi expressiva — 59% desaprovaram a ação policial, demonstrando uma visão mais crítica e sensível às consequências sociais das operações.
A pesquisa também destacou um contraste racial: 43% da população preta entrevistada considerou a operação mal executada, índice superior à média geral de desaprovação. Esse dado reforça o debate sobre o impacto desproporcional das operações policiais em comunidades negras e periféricas, tema recorrente nas discussões sobre violência urbana no país.
População pede mais investigação e menos confronto armado
Além da avaliação direta sobre a megaoperação, o estudo revelou percepções mais amplas sobre estratégias de segurança pública. Para 73% dos entrevistados, a ideia de que “quem sempre morre em operação policial é bandido” não condiz com a realidade. Isso indica um descrédito crescente em narrativas simplistas e um desejo de abordagem mais equilibrada e humanitária.
Outro dado significativo é que 77% dos entrevistados afirmaram acreditar que investigar crimes é mais importante do que eliminar criminosos, sinalizando uma preferência por políticas de inteligência e investigação, em detrimento do confronto direto.
A pesquisa, feita por telefone com 626 eleitores e margem de erro de quatro pontos percentuais, mostra que, embora exista apoio considerável às ações de segurança, a sociedade brasileira ainda se divide sobre o modo como essas operações devem ser conduzidas.
Enquanto parte da população enxerga tais operações como necessárias para o combate à criminalidade, outra parcela teme os excessos, as mortes e as violações de direitos humanos. No centro desse debate, o país segue tentando equilibrar a busca por segurança com o respeito à vida — um desafio que, mais do que político, é também ético e social.