Sílvio Santos Retorna dos M0rtos E…Ver mais

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O SBT realizou nesta sexta-feira (12) o evento oficial de lançamento do SBT News, seu primeiro canal dedicado exclusivamente ao jornalismo 24 horas. A proposta anunciada pela emissora é disputar espaço no noticiário com a promessa de credibilidade, responsabilidade e compromisso com a informação. No entanto, uma escolha feita pela direção durante a cerimônia acabou gerando estranhamento, críticas e intenso debate: o uso de um deepfake de Silvio Santos, falecido em 2024, para discursar diante dos convidados.

A tecnologia utilizada recriou a imagem, a voz e os gestos do fundador do SBT a partir de arquivos audiovisuais antigos. O resultado foi apresentado como um holograma, capaz de simular a presença do comunicador no palco. Apesar do impacto visual e do apelo emocional, a decisão levantou questionamentos éticos justamente em um evento que pretendia exaltar a confiabilidade da informação.

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Holograma recriou discurso que Silvio Santos nunca fez

O avatar digital surgiu diante da plateia saudando autoridades, empresários, convidados, colegas de trabalho e familiares. O texto, porém, não foi escrito nem pronunciado por Silvio Santos em vida. Ele foi integralmente construído por inteligência artificial, com base em padrões de linguagem, entonação e frases recorrentes do apresentador.

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“Hoje é um dia muito especial”, iniciou o deepfake, reproduzindo com precisão até mesmo a famosa risada do dono do SBT. Em outro trecho, o holograma citou nominalmente Íris Abravanel e as filhas Cintia, Silvia, Daniela, Patricia, Rebeca e Renata, numa tentativa clara de humanizar o momento e provocar comoção.

A tecnologia de IA funciona recombinando dados existentes para gerar algo novo, o que significa que o discurso apresentado nunca existiu na realidade. Ainda assim, foi encenado como se fosse uma fala póstuma do comunicador, sem que houvesse, ao menos publicamente, uma contextualização crítica ou um aviso mais enfático sobre o caráter fictício da apresentação.

O paradoxo: deepfake defendendo informação verdadeira

O momento considerado mais controverso do evento veio quando o Silvio Santos artificial passou a defender a importância da informação correta, bem apurada e profissional, em um cenário marcado pela proliferação de fake news. A ironia foi imediata: um discurso sobre verdade sendo feito por um personagem que, tecnicamente, não existe.

“Hoje, a informação correta e profissional é essencial para ajudar as pessoas a crescerem e deixar o país mais forte”, disse o avatar, apresentando o SBT News como um canal comprometido com a verdade e o respeito ao público.

A cena causou desconforto justamente por tocar em um dos temas mais sensíveis do jornalismo contemporâneo: a manipulação de imagens, vozes e narrativas por inteligência artificial. Em um contexto de combate à desinformação, o uso de um deepfake para validar um projeto jornalístico foi visto por críticos como uma contradição simbólica difícil de ignorar.

Embora a tecnologia tenha sido utilizada com autorização da família e com fins institucionais, o gesto reacendeu discussões sobre os limites éticos do uso de IA, especialmente quando envolve figuras públicas falecidas e mensagens que podem ser interpretadas como posicionamentos reais.

Carta de 1988 e o legado editorial em debate

No trecho final do discurso, o Silvio Santos digital “leu” a famosa carta de princípios editoriais escrita em 1988, documento histórico que até hoje orienta o Departamento de Jornalismo do SBT. O texto lista valores como credibilidade, respeitabilidade, seriedade, isenção, apartidarismo, objetividade e compromisso com o público.

A escolha de resgatar esse conteúdo reforçou a intenção da emissora de ancorar o novo canal no legado do fundador. Ainda assim, para parte do público e de profissionais da comunicação, a forma escolhida acabou obscurecendo a mensagem.

O lançamento do SBT News marca um passo importante da emissora no cenário do jornalismo multiplataforma, mas o uso do deepfake de Silvio Santos deixou uma pergunta inevitável: é possível defender a verdade utilizando uma ferramenta que, por natureza, simula o que nunca aconteceu?

Entre inovação tecnológica, homenagem póstuma e risco simbólico, o episódio evidencia um dilema atual da comunicação: como equilibrar tecnologia, memória e ética em um tempo em que a linha entre o real e o artificial se torna cada vez mais tênue.

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