A morte da vendedora de carros Keitiane Eliza da Silva, de 27 anos, após a realização de uma cirurgia plástica em um hospital particular, levantou questionamentos sobre possíveis falhas médicas e sobre os riscos de realizar procedimentos logo após a recuperação da Covid-19. O caso, registrado pela família como negligência, ocorreu na quarta-feira (14), em Goiânia, e já é investigado pelas autoridades.
De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), a jovem morreu em decorrência de choque hemorrágico horas após ser submetida a uma série de procedimentos estéticos. A família aponta que o hospital não tinha estrutura adequada, como leitos de UTI, para lidar com complicações pós-operatórias.

Histórico de Covid-19 e questionamentos sobre riscos
Keitiane havia testado positivo para Covid-19 no dia 22 de março, menos de um mês antes da cirurgia. A princípio, o médico responsável, Alexandre Veloso, recusou-se a realizar o procedimento diante do diagnóstico. No entanto, após novos testes apontarem resultado negativo, a cirurgia foi remarcada.
A paciente realizou exames clínicos, hemograma completo, avaliação cardiológica e anestésica, que não indicaram alterações relacionadas à infecção anterior. A cirurgia englobou lipoescultura, enxerto de gordura nos glúteos, abdominoplastia e correção de cicatriz na mama.
Mesmo assim, especialistas alertam para os riscos. A infectologista Márcia Hueb explicou que, após uma infecção pelo coronavírus, recomenda-se esperar ao menos seis meses antes de cirurgias eletivas, devido às possíveis sequelas que podem afetar o organismo. Para ela, o período de três semanas é considerado curto, o que pode ter contribuído para o agravamento do quadro.
O procedimento e os momentos finais
Segundo o hospital, a cirurgia começou às 8h da manhã de terça-feira (13) e terminou por volta das 14h. Inicialmente, Keitiane apresentou sinais de recuperação e foi encaminhada ao quarto.
Por volta das 19h, relatou falta de ar, mas exames feitos naquele momento não apontaram alterações significativas. O médico de plantão solicitou cuidados adicionais, e às 20h o próprio cirurgião voltou a avaliá-la, registrando estabilidade clínica. Contudo, horas depois, o quadro se agravou, culminando na morte da jovem.
A família afirma que a ausência de leito de UTI comprometeu a resposta a tempo de salvar Keitiane. O advogado Marciano Nogueira destaca que a infraestrutura do hospital não era adequada para suportar cirurgias de grande porte, como a realizada.
Investigações em andamento
O caso foi registrado em boletim de ocorrência e segue em investigação. A Polícia Civil irá analisar documentos, prontuários e os exames realizados pela paciente. O hospital, por sua vez, divulgou nota afirmando que prestou toda a assistência médica necessária e que a paciente foi considerada apta para o procedimento após os exames exigidos.
Já a defesa do médico Alexandre Veloso ressaltou que ele só aceitou realizar a cirurgia após confirmar a ausência da Covid-19 e que todos os exames de risco foram aprovados. Ainda assim, o caso levanta um debate mais amplo sobre os limites da medicina estética e os cuidados exigidos quando a saúde do paciente pode estar fragilizada.
Enquanto isso, a família de Keitiane cobra justiça. Para eles, o que era para ser a realização de um sonho de transformação física terminou de forma trágica e irreversível.