A televisão brasileira acumulou ao longo das décadas nomes fundamentais que ajudaram a construir personagens inesquecíveis e conquistaram diferentes gerações de espectadores. Entre os grandes talentos da nossa história destaca-se Older Cazarré, um artista versátil que transitou com imensa facilidade e genialidade entre novelas, programas de humor, espetáculos teatrais, produções cinematográficas e o universo da dublagem.
Sua trajetória brilhante, no entanto, foi interrompida de maneira violenta e inesperada em um episódio trágico que causou forte repercussão e indignação em todo o país. Vindo de uma família profundamente ligada às artes, Older era filho dos consagrados artistas Darcy Cazarré e Déa Selva, irmão do também comediante Olney Cazarré e tio-avô do ator Juliano Cazarré. Essa forte herança familiar fez com que ele desenvolvesse, desde a infância, uma relação íntima e natural com a atuação, pavimentando o caminho para uma carreira sólida de mais de três décadas de sucesso absoluto.

O sucesso nas telas e a voz eterna de Jaiminho
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A estreia oficial de Older Cazarré na TV Globo ocorreu no ano de 1979, integrando o elenco da icônica novela Feijão Maravilha. A partir desse marco, sua presença tornou-se constante e muito querida nas casas dos brasileiros. Nos anos seguintes, ele participou ativamente de produções de grande audiência da emissora, demonstrando sua flexibilidade artística ao transitar entre o drama e a comédia escrachada. O ator marcou presença em projetos como Os Trapalhões, Ti Ti Ti, Chico Anysio Show, Fera Radical, Que Rei Sou Eu? e Rainha da Sucata.
Paralelamente ao seu aclamado trabalho diante das câmeras na televisão, Older também ganhou imenso destaque nos estúdios de dublagem. Foi ele o responsável por eternizar a voz na versão brasileira do personagem Jaiminho, o carteiro do seriado mexicano Chaves. Com o bordão memorável sobre “evitar a fadiga”, o trabalho de dublagem de Older cruzou gerações e continua vivo na memória afetiva do público infanto-juvenil e adulto até os dias atuais, mostrando a potência de sua interpretação vocal.
A madrugada trágica e o crime em Copacabana
Nos últimos meses de sua vida, o ator integrava o elenco fixo da primeira versão da Escolinha do Professor Raimundo, comandada por Chico Anysio, mantendo uma rotina intensa e alegre de gravações nos estúdios no Rio de Janeiro. No entanto, a fatalidade bateu à sua porta na madrugada do dia 19 de janeiro de 1992.

Enquanto dormia tranquilamente em seu apartamento localizado na Ladeira Saint Roman, no tradicional bairro de Copacabana, na Zona Sul fluminense, Older foi atingido no peito por um disparo de arma de fogo que atravessou a janela do imóvel.
Sua companheira na época, a produtora teatral Lucília Braga, acordou assustada e prestou os primeiros socorros imediatos ao ator dentro do apartamento, encaminhando-o rapidamente ao Hospital Rocha Maia, em Botafogo. Apesar de todos os esforços e da velocidade do socorro, Older Cazarré infelizmente não resistiu à gravidade do ferimento e faleceu antes mesmo de dar entrada na unidade de saúde, aos 57 anos. O falecimento brutal provocou uma onda de choque e profunda consternação entre seus colegas de profissão, familiares e milhões de admiradores.
Investigações e o símbolo da violência urbana
Na época do crime, as perícias criminais realizadas no apartamento e as análises sobre a trajetória do projétil levantaram diferentes hipóteses sobre a origem exata do disparo, sugerindo que o tiro poderia ter partido de um confronto em morros vizinhos. As circunstâncias do caso permaneceram cercadas de questionamentos por muito tempo. Independentemente das conclusões finais da investigação policial, o episódio fatídico passou a figurar na crônica policial brasileira como um dos casos mais emblemáticos e dolorosos envolvendo vítimas de bala perdida na cidade do Rio de Janeiro.
Mais de três décadas após a tragédia, Older Cazarré continua presente na memória coletiva por meio de reprises de novelas antigas, canais de streaming e da voz inconfundível que deu vida ao simpático carteiro mexicano. Seu legado permanece vivo como parte indispensável da história do entretenimento nacional. Ao mesmo tempo, a memória de sua morte precoce segue como um manifesto silencioso que evidencia, de forma nua e crua, os impactos devastadores e aleatórios da insegurança pública urbana sobre cidadãos completamente alheios aos conflitos armados nas metrópoles.