A teledramaturgia nacional perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e apaixonadas. Benedito Ruy Barbosa, autor de clássicos inesquecíveis como “Pantanal”, “Renascer” e “O Rei do Gado”, faleceu na última terça-feira, 7 de julho de 2026, aos 95 anos de idade. O escritor enfrentava complicações decorrentes de uma insuficiência renal crônica. Reconhecido por moldar a identidade da televisão no país, ele transformou suas próprias vivências em folhetins que arrastaram multidões diante da tela.
Benedito era um passional assumido. Não eram raras as vezes em que se emocionava ao falar de suas criaturas ou em que seus familiares o flagravam chorando ao finalizar uma cena. Nascido em 17 de abril de 1931 na pequena Gália, no interior de São Paulo, ele cresceu em Vera Cruz, cercado pela cultura cafeeira e pelas histórias que inventava à noite para os filhos dos imigrantes. No sítio de um tio, aprendeu a essência do campo: andar a cavalo, tirar leite e tocar berrante, elementos que mais tarde injetaria em suas obras-primas.

Das Dificuldades da Juventude ao Sucesso nos Palcos
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A infância do autor foi interrompida de forma abrupta com a morte precoce de seu pai. Sendo o mais velho de cinco irmãos, Benedito precisou começar a trabalhar aos 12 anos para sustentar a casa. Foi caixeiro, escrevente e auxiliar de guarda-livros em uma exportadora de café. Aos 16 anos, com um terno surrado, partiu sozinho para São Paulo, onde dormia em um alojamento humilde e mergulhava nas águas ainda limpas do rio Tietê.
Sua trajetória na escrita começou a se consolidar na década de 1950, quando foi transferido para Marialva, no Paraná. Após testemunhar uma geada histórica que devastou as plantações locais, escreveu o romance “Fogo Frio”. A obra foi adaptada em 1959 para o Teatro Arena sob a direção de Augusto Boal, marcando o início de sua consagração artística. Paralelamente, trabalhou como repórter esportivo, tendo o orgulho de assinar uma matéria profética sobre um jovem de 15 anos chamado Pelé. Foi também nessa época que conheceu sua esposa, Marilena, com quem teve quatro filhos que posteriormente se tornaram seus colaboradores.
A Fundação do Brasil Rural na Teledramaturgia
Contratado pela agência de publicidade que produzia novelas para a Colgate-Palmolive, Benedito trabalhou com a cubana Glória Magadan. A convivência serviu como uma lição às avessas: enquanto Magadan defendia tramas estrangeiras e melodramáticas, ele percebeu que o público precisava ver a realidade brasileira. Ao lado de ícones como Dias Gomes e Janete Clair, fundou as bases da telenovela moderna, escolhendo o Brasil rural, a poesia caipira e a questão da reforma agrária como seus principais pilares de sustentação.
Após passar pela TV Tupi, estreou na Rede Globo em 1971 com “Meu Pedacinho de Chão”. Tornou-se o rei do horário das 18h com sucessos marcantes como “Cabocla” (1979) e “Sinhá Moça” (1986). Insatisfeito com a recusa da emissora em produzir sua saga épica “Os Imigrantes”, migrou para a Band em 1981, onde faturou diversos prêmios. Contudo, a grande revolução de sua carreira ocorreu em 1990, na Rede Manchete, com a exibição de “Pantanal”. A novela, marcada pelo ritmo contemplativo das águas e revoadas de tuiuiús, quebrou a soberania da Globo e alterou permanentemente a linguagem visual da televisão.
Impacto Político, Desgaste Físico e Legado Familiar
O estrondoso sucesso de “Pantanal” garantiu seu retorno triunfal à Globo para o horário nobre. Em “O Rei do Gado” (1996), ele usou o alcance da ficção para pautar o debate nacional sobre a violência no campo e o movimento dos sem-terra. A intensidade com que escrevia, no entanto, cobrava um preço alto de sua saúde. Ele enfrentou internações por pneumonia e úlceras enquanto redigia seus maiores sucessos, recusando-se obstinadamente a usar colaboradores por medo de que alterassem a carpintaria de seus textos.
Nos últimos anos, a preservação de sua obra transformou-se em uma bela tradição familiar. Seus filhos e o neto Bruno Luperi assumiram a responsabilidade pelos aclamados remakes de suas tramas. A última novela de Benedito foi “Velho Chico”, em 2016, aos 85 anos. Benedito Ruy Barbosa partiu deixando um vazio imenso na cultura nacional, mas seu nome permanece eternizado na terra que ele tão bem retratou e no coração de milhões de brasileiros.